segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Como aprimorar a persuasão de seu anúncio

Por Marcos Facó*

Uma pesquisa da escola de administração de Stanford revela que não é apenas o conteúdo da comunicação que é importante, mas o contexto é também fundamental para uma melhor persuasão.

Alguns pesquisadores descobriram que as mensagens são percebidas como mais poderosas quando são precedidas por outras que parecem ter relativamente menos substância, ou vir de porta-vozes com relativamente menor credibilidade. Em outras palavras, se você quiser que sua mensagem pareça particularmente boa, coloque-a depois de alguma não tão boa. É como ter um ato de abertura que define o nível de qualidade para baixo, fazendo com que o evento principal pareça muito melhor em comparação.

Em dois artigos publicados em 2007, Zakary Tormala, professor associado de marketing na escola de administração de Stanford, e os coautores Richard Petty, da Universidade de Ohio, e Joshua Clarkson, da Universidade de Indiana, detalharam os resultados de seis estudos que eles conduziram, sobre a forma como o contexto em que uma mensagem aparece afeta a sua influência e credibilidade percebida.

Os estudos foram realizados com alunos de graduação nas universidades de Ohio e Indiana. Na primeira série dos estudos, todos os alunos leram um informe publicitário de uma hipotética loja de departamentos chamada Brown, que apresentava alguns detalhes dos seus departamentos. Antes disso, os alunos tinham lido uma descrição da loja de departamentos Smith, sobre o novo carro Mini Cooper ou um resumo biográfico de um estudante universitário hipotético.

Em todos os casos, a percepção dos alunos sobre a descrição da loja de departamentos Brown foi significativamente afetada pela natureza da mensagem anterior. Quando a primeira mensagem era mais frágil, oferecendo menos fatos de suporte e/ou apoio do que a mensagem da Brown, os estudantes avaliaram a loja de departamentos “Brown” em termos mais positivos. Tormala considera que a segunda mensagem foi vista como mais convincente quando a primeira continha relativamente menos informações.

O que é particularmente significativo é que não importa se a primeira mensagem era relacionada com a segunda ou completamente independente, como no caso do carro ou do resumo biográfico. Simplesmente ser precedida por uma mensagem menos informativa fez a loja de departamentos Brown ser percebida como melhor. Inversamente, quando as descrições anteriores continham mais informação do que a mensagem da Brown, a avaliação da loja piorou.

Com menos informações sobre os primeiros itens, os participantes tinham a sensação de que sabiam mais sobre Brown. Tormala explica que, quando as pessoas pensavam que tinham mais informações favoráveis sobre a Brown elas gostavam mais da loja, embora a quantidade real de informação disponível não tenha sido alterada.

Uma segunda série de estudos analisou como outra variável, a credibilidade das fontes, afetou a capacidade de persuasão de uma mensagem. Nesses estudos, os alunos foram levados a crer que a sua universidade estava pensando em implementar exames abrangentes como condição para se formar. Todos os participantes receberam uma sugestão sobre a mudança anunciada, dizendo que ela foi escrita por alguém que normalmente seria percebido como moderadamente crível, um professor universitário local.

Anteriormente, os alunos tinham lido outra mensagem diferente sobre o apoio a uma nova política que exigia a prestação de serviços à comunidade do campus. Os pesquisadores disseram para alguns alunos que essa mensagem foi escrita por alguém com baixa credibilidade, um estudante de 14 anos, enquanto disseram para outros que a mensagem foi escrita por alguém de grande credibilidade, um professor de Princeton.

Os participantes responderam mais favoravelmente à segunda mensagem sobre o exame abrangente, supostamente escrita pelo professor universitário, quando foram informados de que a fonte da primeira mensagem que leram foi escrita pelo menos crível aluno de 14 anos de idade em vez do mais crível professor de Princeton. Segundo Tormala, esse resultado se compara aos dos primeiros estudos. Quando uma mensagem moderadamente crível é precedida por uma menos crível, ela parece ser mais convincente.

Essa pesquisa sugere que pensar na adaptação do contexto da mensagem das campanhas de publicidade é tão importante quanto pensar sobre o conteúdo. Os publicitários, por exemplo, podem querer veicular os seus comerciais de TV depois de algo relativamente mais insípido.

Tormala ainda sugere que os anunciantes podem até dar um passo mais radical e considerar a compra do anúncio anterior, e preenchê-lo com uma mensagem menos convincente para uma marca ou produto diferente. O anúncio veiculado na sequência de um anúncio pouco atraente, para qualquer produto ou marca, ajuda o mesmo a parecer mais persuasivo.

Tal lubrificante para a roda da persuasão, como Tormala argumenta, não deve ser visto como manipulador. A informação dessa pesquisa pode ser usada para vender produtos, promover um candidato político ou importantes mensagens sobre saúde, tornando a comunicação mais efetiva.

* Marcos Facó é Superintendente de Marketing da Fundação Getulio Vargas – FGV, Mestre em Administração pela FGV, MBA em Marketing pela PUC-RJ, Pós-graduação na Ecolé Polytecnique Fedéralè de Lausanne – Suíça, formado em arquitetura e engenharia civil pelo Mackenzie, e é co-autor do livro Marketing Educacional.

Cantão atravessa quatro décadas se renovando

Marca é sinônimo de inovação e estilo de vida mesmo aos 42 anos

Por Sylvia de Sá, do Mundo do Marketing | 22/01/2010
sylvia@mundodomarketing.com.br



Sinônimo da moda carioca na década de 1980, o Cantão chega a 2010 sabendo se reinventar sem perder sua essência. O foco no relacionamento com as consumidoras e uma estrutura que integra as ideias de todos os departamentos da empresa são alguns dos segredos do sucesso. Criado pelo casal Leila Barreto e Peter Simon, o Cantão completa 42 anos sendo uma das poucas marcas de moda brasileira que não perdeu sua força com o passar do tempo.

Atualmente, são 17 lojas no Rio de Janeiro e outras 19 espalhadas pelo Brasil, além de estar presente em mais de 750 multimarcas e exportar para países como Austrália, Portugal, Espanha, Japão, Emirados Árabes e Estados Unidos. Sempre buscando inovar, a empresa foi uma das primeiras a criar departamentos como de Visual Merchandising, programação visual e sistemas de informação.

A marca também soube se associar a um estilo de vida próprio numa época em que o tema era pouco explorado. “O Cantão foi pioneiro em dar os produtos para as pessoas certas. Isto possibilitou disseminar a marca de uma forma muito orgânica”, explica Richard Yates, também conhecido como Rick Yates, Gerente de Marketing do Cantão, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Pesquisas para mudar
A partir de 2005, a empresa passou por um processo de reformulação que incluiu pesquisas, projeto de arquitetura para as lojas e mudança da logo. Hoje, o departamento de Marketing investe fortemente em Visual Merchandising, Trade Marketing, CRM e ações que envolvam os pontos-de-venda para garantir uma experiência de compra satisfatória.

Case CantãoA nova ambientação das lojas deu espaço para que os produtos se destacassem, retirando o excesso de informação. As unidades mais recentes já são inauguradas sob este conceito, enquanto as antigas são adaptadas aos poucos. Outro fator essencial para a identidade visual dos pontos-de-venda é o que Rick Yates chama de “alma Cantão”. Nas unidades, os clientes encontram peças que independem da coleção vigente para estarem lá. Fazem parte da essência da loja, como os sofás de patchwork.

É neste ambiente que a consumidora tem contato com o DNA da marca e seu estilo de vida. Outro destaque quando o assunto é relacionamento é o programa de fidelidade “Meu Cantão”. A ferramenta divide as consumidoras em várias categorias de acordo com a frequência com que efetuam compras e o valor que costumam gastar. No último Natal, por exemplo, as 15 melhores consumidoras receberam um kit de cama da marca.

Renovação sem perda da essência
A importância de traduzir nas lojas a alma da empresa está ligada ao fato de que o Cantão, muito mais do que uma marca de moda, é também uma marca de comportamento. “É impressionante a ligação afetiva do consumidor. Isso é visto nas pesquisas. O Cantão foi passado de mãe para filha, apesar de ter um posicionamento para mulheres de 25 a 35 anos, a marca atende clientes de 15 a 60 anos”, aponta Yates (foto).

Para o executivo, o Cantão está hoje no mercado pela sua capacidade de se renovar na medida certa. “O erro de qualquer marca é confundir atualização e modernização com ruptura, mudar para se adaptar ao cliente e deixar de respeitar o próprio DNA. Deve-se usar a essência da marca como lente para o desenvolvimento de qualquer produto”, diz.

“O Cantão está num caminho certíssimo”, acredita Sérgio Garrido, especialista e professor de Marketing de Moda da ESPM-SP. “Sempre que a marca tem algo em seu DNA, é importante não perdê-lo. O Cantão parece ter uma essência. Deve conservá-la trocando a linha de produtos frequentemente. Uma marca não pode ficar velha, tem que ter história”.

Apoio à cultura agrega valor ao Cantão
Fora das lojas, o Cantão perpetua sua essência a partir de ações que resgatam uma característica que sempre esteve atrelada à empresa: o incentivo à arte e à cultura. Projetos como a ação Eu Amo Ler agregam valor à marca e ainda cumprem sua função social. Lançada junto com a coleção de inverno 2008, no Fashion Rio, a campanha arrecadou 3.500 livros que foram doados para 29 bibliotecas públicas do município do Rio de Janeiro.

Outra iniciativa neste sentido é o Reciclagem Cantão. O movimento doa sobras de antigas coleções e restos de materiais que antes ambientavam as lojas, para compor o figurino e o cenário de instituições de teatro como a Cia. dos Atores, a Casa das Artes de Laranjeiras e a Casa da Gávea.

O apelo sustentável do Reciclagem Cantão ainda vai além. Tecidos, refugo de calçados e embalagens que foram descartados dão origem a produtos inéditos que viram brindes para as clientes. Um exemplo são as bolsas banners feitas de sobras das vitrines dos pontos-de-venda e distribuídas durante o desfile Mar de História, na edição de inverno do Fashion Rio 2008. Já no Natal de 2007, clientes que anteciparam suas compras foram presenteadas com bolsas e almofadas feitas com sobras de tecidos das coleções antigas.

Case CantãoNovidades para 2010
A nova aposta da marca agora é uma linha de produtos para a casa. As peças são em sua maioria feitas de material reaproveitado e desenvolvidas pela ONG Refazer, projeto de apoio aos pacientes do Instituto Fernandes Figueiras, da Fiocruz. Os produtos serão vendidos no e-commerce e marcam uma nova fase do Cantão, que se afirma como uma marca que representa muito mais do que moda.

“A extensão de marca é natural dentro do conceito que o Cantão vende de estilo de vida. Itens de decoração são complementos bastante importantes”, destaca Garrido, da ESPM-SP, lembrando da Le Lis Blanc, outra marca de moda que também apostou neste segmento.

Outra incursão fora do segmento da moda é a parceria com a Nivea para o lançamento do Soft Milk by Cantão. A marca desenvolveu a estampa da embalagem que foi distribuída na última edição do Fashion Rio e também estará disponível em breve nos pontos-de-venda como brindes para clientes. A linha Cantão Básico também é uma novidade na próxima coleção e contará com peças com preços mais acessíveis.

Abertura para o novo
Para este ano, a marca prepara ainda outras surpresas como a linha Fernanda Lima, garota propaganda da marca. O plano de expansão também prevê a abertura de mais cinco lojas pelo país, além de duas em São Paulo. “O Brasil tem mercados que ainda são enormes. São Paulo é um exemplo, com apenas duas franquias. Antes de pensar em exportação, vamos trabalhar o mercado interno”, afirma o executivo do Cantão ao site.

O bom momento da marca é reflexo da união entre os departamentos criativos da empresa. “A diferença do Cantão é que, de fato, é feito por várias mentes pensantes. Não só pelo Marketing. Dentro dos departamentos que lidam com criatividade (estilo, Marketing e programação visual), sempre existiu uma troca muito grande”, reflete Yates.

Um exemplo disso é a próxima coleção de verão, que já tem tema. Ao contrário do que acontece normalmente, o conceito foi sugestão do Marketing e da Programação Visual e logo abraçado pela equipe de estilo. Yates deixa a dica para o sucesso. “O segredo do Cantão é a abertura para o novo, sem perder a essência. Além do cuidado com o cliente. A palavra da vez é o cuidado”.

Marketing para perder a vergonha de comprar

Prudence, Dona Flor e Clube da Calcinha usam estratégias diferenciadas para vender camisinha, lingerie e produtos de sex shop

Por Thiago Terra, do Mundo do Marketing | 01/02/2010
thiago@mundodomarketing.com.br



Não chega a ser constrangedor, mas também não é confortável para o consumidor ser visto saindo de uma sex shop ou experimentando uma lingerie de tamanho GG frente a uma vendedora de corpo esbelto. A vergonha na hora de comprar certos produtos faz com que algumas empresas invistam em serviços que evitem uma situação desagradável e deixem o consumidor mais à vontade para comprar.

Foi neste nicho que a Dona Flor investiu. A empresa que atua no mercado de vendas porta a porta de produtos sensuais para mulheres há um ano entendeu esta necessidade e hoje atinge consumidoras em todo o país. A internet também ajuda na discrição das mulheres mais “atiradas”. A empresa Clube da Calcinha criou recentemente uma loja virtual de olho nas consumidoras que não se sentem muito confortáveis em comprar peças sensuais ou com as medidas do corpo.

Até pouco tempo atrás comprar camisinha também era complicado. Pedir o produto para o atendente ou perguntar onde estavam expostos os preservativos nas farmácias gerava constrangimento para o consumidor. Há dois anos a Prudence investe em novas embalagens e em ações de relacionamento para passar uma imagem divertida e prazerosa quanto ao uso de camisinha.

Embalagens divertidas e atendimento privativo
Além do investimento em embalagens mais coloridas, a quebra do tabu de comprar camisinha está ligada à mudança no comportamento de compra. “Os consumidores entenderam que é necessário usar camisinha. Saímos da comunicação terrorista da prevenção e entramos no apelo ao prazer”, diz Denise Santos, coordenadora de Marketing da DKT do Brasil, empresa que detém a marca Prudence.

Prazer também é a palavra-chave da Dona Flor. A empresa acredita que a venda direta cria um relacionamento mais íntimo e com total privacidade, questão crucial para evitar a vergonha dos consumidores em comprar produtos para esquentar a relação. “Não somos um sex shop por catálogo. Os produtos são oferecidos de forma sutil e nada apelativo ou pornográfico. Primamos pela privacidade”, explica João Paulo de Sá, Gerente de Marketing e Comunicação da Dona Flor, em entrevista ao Mundo do Marketing.

A fórmula usada pela Dona Flor é bem parecida com a venda de cosméticos. O insight para o projeto veio de um trabalho acadêmico feito pelo CEO da empresa, Pedro Brasil. “Em um curso tive que criar um produto para vender sob os moldes de porta a porta. Percebi o nicho falando com uma ex-namorada”, conta. Após algumas conversas e a percepção da demanda existente no mercado, o projeto ganhou forma e entrou no mercado através de distribuidores treinados que repassam os produtos para as revendedoras.

Serviços ajudam clientes a perder a vergonha de comprarVergonha X fantasia
Os motivos para que um consumidor desista de fazer uma compra por vergonha são diversos. Um deles é estar acima do peso. Algumas mulheres com quilos extras sentem vergonha ao entrar em uma loja para comprar lingeries. Pensando nisso, o Clube da Calcinha criou uma loja virtual para que as mais gordinhas pudessem escolher o tamanho ideal sem se comparar à vendedora, geralmente magra e bonita, de uma loja.

Além delas, homens também não gostam da ideia de comprar estes produtos no ponto-de-venda. Percebendo a situação, as lojas que vendem seus produtos no Clube da Calcinha propuseram a criação do site. “O objetivo destas marcas era suprir a demanda e evitar que elas lançassem lojas virtuais, com medo de uma possível diminuição na receita das lojas físicas”, afirma Maria Claudia Aravecchia Klein (foto), sócia-fundadora do Clube da Calcinha, ao site.

O e-commerce do Clube da Calcinha foi estruturado em um ano com base em pesquisas de mercado. Para ativar as vendas e levar a marca ao ponto G do mercado, a empresa flertou com as redes sociais. “Usamos muito o Orkut e o Twitter para fazer promoção relâmpago e lançamento de produtos das marcas com que trabalhamos”, constata Maria Claudia.

Serviços ajudam clientes a perder a vergonha de comprar

Marketing sem vergonha
Uma das formas de evitar a vergonha em uma situação qualquer de compra é levá-la para o lado cômico. Foi isso o que a Prudence fez. “A principal estratégia para tornar a venda mais fácil foi diferenciar nossas embalagens. Hoje temos consumidores que usam camisetas do programa de relacionamento Testadores de Camisinha”, diverte-se a coordenadora de Marketing da DKT do Brasil. De acordo com ela, desde 2008 a empresa iniciou este novo posicionamento e modificou o relacionamento com o consumidor.

A estratégia da Dona Flor não está somente na venda porta a porta. Por meio de uma revista própria, principal instrumento de vendas da companhia, as clientes envergonhadas vêem as novidades de produtos a cada três meses. “Além da revista, o material de Trade é muito importante para divulgar os produtos nos balcões dos distribuidores e chamar a atenção das revendedoras”, aponta João Paulo de Sá.

Prova de que o Brasil possui muitas consumidoras envergonhadas é que a Dona Flor possui um ticket médio em torno de R$ 60,00 e as regiões que concentram maiores vendas variam. “Na grande maioria dos estados do país a venda porta a porta é muito forte. Já nos grandes centros não se vê muito esse tipo de negócio”, completa o Gerente de Marketing da Dona Flor. De acordo com ele, a empresa espera que em 2010 o número de revendedoras passe de 500 para 55 mil.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Decodificando a customização em massa

O assunto parece antigo, mas é cada vez mais importante e a maioria das empresas ainda não o dominou. Pesquisas de experts do Instituto de Empresa revelam os reais impulsionadores da personalização com escala

Por HSM Management, do Mundo do Marketing | 26/01/2010
pauta@mundodomarketing.com.br



O conceito de customização em massa faz sentido, hoje mais do que nunca. Por que as pessoas não gostariam de ser tratadas como clientes individuais, com produtos feitos segundo suas necessidades específicas? Contudo, tem sido mais difícil do que o previsto implementar a customizaçãoem massa e muitas empresas desistiram da abordagem após inúmeros fracassos, como a tentativa frustrada da Levi Strauss de fabricar jeans personalizados. Agora, os executivos tendem a pensar na customização em massa como uma ideia fascinante, mas impraticável, restrita a reduzido número de casos, como o da Dell no mercado de microcomputadores.

Nossas pesquisas sugerem o contrário. Na última década, estudamos a customização em massa em diversas organizações, incluindo um estudo com mais de 200 instalações fabris em oito países. Com base nessa pesquisa, verificamos que a customização em massa não é um tipo de abordagem exótica com aplicação limitada. Ao contrário, é um mecanismo estratégico aplicável à maioria dos negócios, contanto que adequadamente entendido e implementado. O segredo é pensar nela basicamente como um processo para alinhar uma empresa com as necessidades de seus clientes. Ou seja, a customização em massa não significa atingir um estado no qual uma organização sabe exatamente o que cada cliente quer e consegue fabricar produtos individualizados específicos que satisfazem essas exigências – tudo a custo de produção em massa. Em vez disso, trata-se de encaminhar-se para essas metas desenvolvendo um conjunto de capacitações organizacionais que, com o tempo, complementarão e enriquecerão o negócio existente.

1) Identificar os atributos do produto dos quais as necessidades dos clientes divergem.
2) Reutilizar ou recombinar recursos organizacionais e da cadeia de valor.
3) Ajudar os clientes a identificar ou criar soluções para as próprias necessidades.

Reconhecidamente, o desenvolvimento dessas capacitações exige mudanças que, com frequência, são difíceis por causa das poderosas forças inerciais de uma organização, mas isso torna o argumento ainda mais convincente. As empresas que conseguem desenvolver as capacitações serão capazes de desfrutar vantagens competitivas duradouras. Além disso, acreditamos que é possível superar muitos obstáculos utilizando-se de uma variedade de abordagens e que mesmo pequenas melhorias podem resultar em benefícios substanciais. O segredo é lembrar que não existe uma maneira única para a customização em massa. Os gestores precisam adaptar a abordagem de forma que faça mais sentido para seus negócios específicos.

Compreensão da customização em massa
A expressão “customização em massa” foi popularizada por Joseph Pine, que a definiu como “desenvolver, produzir, comercializar e entregar produtos e serviços a preço razoável com suficiente variedade e personalização para que quase todos encontrem exatamente o que querem”. Em outras palavras, a meta é dar aos clientes o que eles quiserem quando quiserem. Vejamos alguns exemplos.

A Pandora.com libera as pessoas de terem de ficar mudando de estação de rádio até encontrar a música de que gostam. Os clientes enviam, inicialmente, uma lista de suas músicas preferidas; com essas informações, a empresa identifica um conjunto mais amplo de músicas que se encaixam em seu perfil de preferência e então as transmite como um canal de rádio personalizado. Até dezembro de 2008, os mais de 21 milhões de clientes da Pandora.com haviam criado 361 milhões de estações de rádio personalizadas, que tocavam 61 milhões de músicas de 60 mil artistas todos os dias.

 Os clientes da BMW podem usar um kit de ferramentas on-line para desenhar a capota de um Mini Cooper com a própria arte gráfica ou foto, que é então reproduzida com um avançado sistema digital sobre um laminado especial. O kit permitiu à BMW entrar no mercado de pós-vendas, que antes era propriedade exclusiva de empresas de nicho. Além disso, os clientes do Mini Cooper também podem escolher dentre centenas de opções para muitos dos componentes do carro, uma vez que a BMW consegue fabricar carros por encomenda.

O My Virtual Model, com sede em Montreal, está mudando a natureza da própria experiência de compras. O software permite que os clientes construam modelos virtuais, ou avatares, de si próprios que lhes permitem avaliar (ao vestir ou usar virtualmente) produtos de varejistas como Adidas, Best Buy, Levi’s e Sears. Mais de 10 milhões de usuários já se inscreveram no serviço, e os resultados iniciais são impressionantes.

O que esses exemplos têm em comum? Independentemente da categoria do produto ou setor, todos eles transformaram as necessidades heterogêneas dos clientes em uma oportunidade de criar valor, em vez de um problema a ser minimizado, desafiando a premissa de “um tamanho para todos” da produção em massa tradicional. Para aproveitar os benefícios da customização em massa, contudo, os gestores precisam pensar nela não como uma estratégia isolada de negócio para substituir processos de produção e distribuição, mas como um conjunto de capacitações organizacionais que podem ajudar a empresa a se alinhar melhor com as necessidades de seus clientes.

Três capacitações exigidas
Logicamente, qualquer abordagem à customização em massa deve levar em consideração vários fatores específicos do setor ou do produto. Em nossa pesquisa, no entanto, identificamos três capacitações comuns que determinarão a capacidade fundamental de uma empresa de customizar em massa suas ofertas.

1. Desenvolvimento de espaço de solução. Um customizador em massa deve primeiramente identificar as necessidades típicas de seus clientes, mais especificamente, os atributos do produto dos quais as necessidades do cliente mais divergem. (Isso se contrapõe fortemente a um produtor em massa, que deve concentrar-se em atender a necessidades universais que sejam idealmente compartilhadas por todos os clientes-alvo.) Uma vez conhecidas e entendidas essas informações, a empresa pode definir seu “espaço de solução”, delineando claramente o que vai oferecer e o que não vai. Obviamente, correlacionar necessidades heterogêneas de clientes com atributos diferenciados de produto, validar conceitos de produto e coletar feedback do cliente costuma ser custoso e complexo, mas diversas abordagens podem ajudar.

A primeira é fornecer aos clientes uma ferramenta de software de design, como um sistema CAD, mas com uma interface de fácil uso e uma biblioteca de módulos e funcionalidades básicas. Utilizando os chamados kits de ferramentas de inovação, os próprios clientes traduzem suas preferências diretamente no design de um produto, destacando necessidades não atendidas durante o processo. As informações resultantes são então avaliadas e potencialmente incorporadas pela empresa a seu espaço de solução. Quando estava desenvolvendo seu premiado Fiat 500 de modelo retrô, a Fiat criou o “Concept Lab”, kit de ferramentas de inovação que permitia aos clientes expressar suas preferências em relação ao interior do carro muito antes de ser construído o primeiro veículo.

A empresa recebeu mais de 160 mil designs de clientes – um esforço de desenvolvimento de produto que nenhuma montadora conseguiria replicar internamente. E a Fiat permitiu que as pessoas comentassem sobre os designs dos outros, fornecendo uma avaliação inicial dessas ideias. Logicamente, os produtores em massa também podem se beneficiar de kits de ferramentas de inovação, mas a tecnologia é particularmente útil para a customização em massa, porque pode ser implementada a baixo custo para grandes grupos de clientes heterogêneos; em outras palavras, o segredo aqui é a escalabilidade.

Depois de coletar dados sobre as necessidades de seus clientes, uma empresa tem de interpretá-los e colocá-los na forma de conceitos de produto para que os clientes os revisem. Entretanto, o simples número de variantes de protótipos que podem ser gerados costuma tornar o processo assustador. Consequentemente, algumas empresas implementaram uma abordagem chamada “testes de conceito virtual”. Tomemos como exemplo a Adidas, que produzia mais de 230 mil amostras de calçados todos os anos para vender 55 milhões de tênis distribuídos entre mais de 10 mil itens de estoque. Com o software My Virtual Model, a empresa conseguiu substituir muitos dos protótipos físicos por outros virtuais, que os lojistas podem então provar em seus modelos virtuais.

Em decorrência disso, a Adidas espera economizar milhões de dólares por ano. Ao desenvolverem um espaço de solução, as empresas deveriam levar em conta a incorporação de dados não só dos clientes atuais e potenciais, como também dos que passaram a comprar em outro fornecedor. Consideremos, por exemplo, as informações sobre produtos que foram avaliados, mas não pedidos. Tais dados podem ser obtidos dos arquivos de login gerados pelo comportamento de navegação das pessoas utilizando configuradores on-line. Ao analisar sistematicamente essas informações, os gestores podem ficar sabendo muito a respeito das preferências dos clientes, o que acaba levando-os a um espaço de solução refinado. Uma empresa poderia, por exemplo, eliminar opções que raramente são exploradas ou escolhidas e acrescentar mais escolhas para os componentes populares.

 2. Processo de design robusto. Um customizador em massa também tem de se assegurar de que maior variabilidade dos requisitos dos clientes não afetará significativamente as operações e a cadeia de fornecimento da organização. Para isso, a empresa precisa de um processo de design robusto – a capacidade de reutilizar ou recombinar recursos da cadeia de valor – para entregar soluções customizadas com a eficiência e confiabilidade quase como da produção em massa. Mas como as empresas podem atingir esse estágio?

Uma possibilidade é a automação flexível. Embora as palavras “automação” e “flexível” possam ter sido contraditórias no passado, isso não se aplica mais. Na indústria automobilística, os robôs e a automação são compatíveis com níveis anteriormente desconhecidos de versatilidade e customização. Mesmo setores de processamento (produtos farmacêuticos, alimentícios etc.), antes sinônimos de rígida automação e grandes lotes, agora utilizam níveis de flexibilidade considerados inatingíveis no passado. Analogamente, muitos produtos e serviços intangíveis também se prestam a soluções automatizadas flexíveis, frequentemente baseadas na internet. No caso do setor de entretenimento, a crescente digitalização está transferindo todo o sistema de entrega do produto do mundo real para o virtual.

Uma abordagem complementar à automação flexível é a modularidade do processo, que pode ser atingida se os processos operacionais e da cadeia de valor forem vistos como segmentos, cada um vinculado a uma fonte específica de variabilidade dentro das necessidades dos clientes. Assim, a empresa pode atender a diferentes necessidades dos clientes recombinando adequadamente os segmentos do processo sem precisar criar custosos módulos ad hoc.

Para assegurar o sucesso do processo de design robusto, as empresas precisam investir em capital humano adaptativo. Especificamente, os funcionários e gestores têm de ser capazes de lidar com tarefas inusitadas e ambíguas para compensar qualquer potencial rigidez que esteja embutida nas estruturas e tecnologias do processo.

3. Facilidade de escolha. Finalmente, um customizador em massa deve dar suporte aos clientes na hora de identificar seus problemas e soluções e, ao mesmo tempo, minimizar a complexidade e o peso da escolha. É importante lembrar que, quando um cliente é exposto a uma profusão de possibilidades, o custo de avaliar essas opções pode facilmente ultrapassar o benefício adicional de ter tantas escolhas. A síndrome resultante foi chamada de “paradoxo da escolha”, no qual muitas opções podem na verdade reduzir o valor para o cliente em vez de aumentá-lo. Nessas situações, os clientes podem postergar suas decisões de compra e, pior ainda, classificar o fornecedor como difícil e indesejável. Para evitar isso, uma empresa pode fornecer navegação facilitada entre as escolhas.

Uma abordagem eficaz é a “combinação de sortimento”, na qual o software automaticamente constrói configurações para os clientes combinando modelos de suas necessidades com características dos espaços de solução existentes (ou seja, conjuntos de opções). Os clientes então só têm de avaliar as configurações, o que lhes poupa considerável esforço e tempo no processo de busca. Usando o software My Virtual Model, por exemplo, os clientes constroem avatares de si mesmos selecionando tipo de corpo, penteado, características faciais e assim por diante. Com base nessas informações, o sistema pode então recomendar itens de determinado lojista on-line.

No entanto, os clientes nem sempre estão prontos para tomar uma decisão depois de receber recomendações. Talvez eles não estejam seguros de suas reais preferências ou as recomendações não se encaixem em suas necessidades ou gosto. Nesses casos, o software que incorpora aprendizado de ciclo rápido por tentativa e erro pode ajudar os clientes a interativamente realizar múltiplos experimentos sequenciais para testar a combinação entre as opções disponíveis e suas necessidades.

Outras empresas estão empurrando as fronteiras da navegação de escolha ainda mais, automatizando totalmente o processo. Peguemos, por exemplo, produtos recentes que “entendem” como deveriam se adaptar ao cliente e então se reconfiguram de forma condizente. Dotados dessa capacidade de configuração embutida, tais produtos podem ser itens padrão para o fabricante, mas, paradoxalmente, o usuário vivencia uma solução customizada.

É o que ocorre com o Adidas 1, tênis de corrida equipado com sensor magnético, sistema para ajustar o amortecimento e microprocessador para controlar o processo. Quando o calcanhar do tênis toca o chão, o sensor mede a quantidade de compressão em sua palmilha e o microprocessador calcula se o tênis está macio ou duro demais para o usuário. Um minúsculo motor então encurta ou estica um cabo fixado a um elemento amortecedor de plástico, tornando-o mais rígido ou flexível.

Uma jornada, não um destino
Muitos executivos rejeitam a customização em massa de cara, simplesmente pelo preconceito de que ela não funcionará no negócio deles. Logicamente, a customização em massa nunca deve ser implantada sem um olhar clínico, e essa abordagem não é uma solução universal. Entretanto, o ceticismo disseminado é, em parte, consequência de como o conceito tem sido, muitas vezes, simplificado (e vulgarizado) demais. Tem sido retratado como um “estado ideal” no qual uma empresa sabe perfeitamente como realizar diversas tarefas irrealistas: entender em detalhe quais são as preferências de seus clientes, minimizar as compensações entre variedade e desempenho do produto, simplificar a forma de apresentar suas ofertas e produzir itens customizados a custo de produção em massa. É impossível atingir esse estado ideal, e mesmo os chamados campeões da customização em massa têm deixado a desejar.

A questão é: o que significa na prática a customização em massa? Acreditamos que os gestores deveriam pensar na implementação dessa prática como um processo semelhante a se deslocar ao longo de um continuum cujos limites são, de um lado, a produção em massa e, do outro, o estado ideal da customização em massa. A localização de uma empresa nesse espectro é determinada pelos três critérios discutidos anteriormente: desenvolvimento de espaço de solução, processo de design robusto e facilidade de escolha. Ao implementar a customização em massa, uma empresa pode decidir melhorar todas as três capacitações simultaneamente ou concentrar-se, primeiro, em uma ou duas delas, dependendo do estado da tecnologia e da concorrência em seu setor.

 Mesmo as pequenas melhorias permitem que as empresas alcancem uma diferenciação estratégica e vantagem competitiva, e o sucesso em uma área pode ajudar a criar um impulso para mudanças em outra. Vejamos o caso da American Power Conversion, importante fabricante de equipamentos para redes e data centers. Ela vem melhorando incansavelmente sua cadeia de valor há mais de uma década, passando de seu tradicional (e caro) modelo de engenharia sob pedido para a customização em massa. A jornada começou com o desenvolvimento de produtos baseados em módulos, seguido do uso de um configurador no processamento de vendas e pedidos. Então a empresa iniciou a produção em massa de componentes padrão no Extremo Oriente, com a montagem final (segundo o pedido do cliente) em vários locais do mundo. Resultado: o tempo de entrega para um sistema completo caiu de 400 para 16 dias, os custos diminuíram e a inovação do produto melhorou. Agora a APC está tentando aplicar os mesmos princípios de customização em massa a seus serviços e pós-vendas, importante fonte de receita e lucros.

Como vencer a inércia
Apesar do sucesso de empresas como a APC, os executivos nunca devem subestimar os desafios da implementação. Em nossa pesquisa, ficamos repetidamente espantados com a dificuldade das empresas em atingir mesmo melhorias moderadas em relação às três capacitações fundamentais da customização em massa. Os gestores tipicamente tinham de superar poderosas forças inerciais dentro da organização, e a resistência mais forte normalmente vinha das seguintes áreas:

Foco no marketing. Para os produtores em massa, o foco do grupo de marketing não é detectar diferenças entre as necessidades dos clientes, é identificar e explorar os aspectos comuns. Consequentemente, os marketeiros tradicionais não têm, em geral, o conhecimento e as ferramentas apropriados para um customizador em massa e, quando deparam com o acréscimo de mais variedade nas linhas de produtos, costumam (1) confiar em critérios ultrapassados de diferenciação de produtos ou (2) imitar atributos diferenciadores introduzidos pelos concorrentes. Qualquer uma das abordagens provavelmente não conseguirá aproveitar as heterogeneidades inexploradas dos clientes.

Procedimentos contábeis. Com a produção em massa, não se exigem procedimentos contábeis detalhados para calcular e alocar as ofertas de produtos específicos, o overhead de fabricação e a engenharia resultante da proliferação de peças – simplesmente porque existe muito pouca ou nenhuma variedade de peças. Assim, há problemas em determinar as implicações precisas do custo de expandir suas ofertas de produtos e podem deixar de levar em conta as vantagens da padronização de peças. Quando isso acontece, o risco é que os custos disparem e fujam ao controle.

Cultura de design. Na produção em massa, a ênfase durante o desenvolvimento do produto está na singularidade do design ou na minimização do custo variável de componentes recém-desenvolvidos. Isso leva a designs de singularidade máxima ou ao uso de peças ad hoc com custo mínimo. Com a customização em massa, o foco está, em vez disso, em designs que tenham sinergia com outros designs, ou seja, que compartilhem peças e processos como parte do espaço de solução.

Critérios de investimento. A lógica de investimento dominante para um produtor em massa é a busca de economias de escala, que tende a favorecer ativos fixos rígidos que provavelmente não se encaixam na customização em massa. Esse problema é exacerbado pela síndrome dos “custos irrecuperáveis”. Os gestores frequentemente resistem em se desfazer de um investimento que fizeram no passado, mesmo se não for mais apropriado.

Restrições da cadeia de valor. A reconfiguração de uma cadeia de valor que foi originariamente concebida para produção em massa a fim de acomodar um mix de produtos variável pode apresentar inúmeros problemas. Por exemplo, uma política de compras corporativas talvez traga dificuldades para uma divisão selecionar uma nova base de fornecedores. Além disso, restrições estruturais externas dentro dos canais de fornecimento e distribuição também podem apresentar obstáculos significativos.

Customização da customização em massa
Uma das maiores lições de nossa pesquisa é que não há uma maneira melhor de customizar em massa, e tentar copiar empresas bem-sucedidas como a Dell pode levar a graves fracassos. A mensagem fundamental é que uma empresa deve customizar sua estratégia de customização em massa de acordo com as exigências de sua base de clientes, com o estágio da concorrência e com a tecnologia disponível.

Afinal, a customização em massa não se refere a práticas padrão, mas sim a um esforço organizacional que seja amplamente aplicável a qualquer negócio cujos clientes estejam dispostos a pagar por soluções ou experiências customizadas. De fato, chegou a hora de encarar a customização em massa como mecanismo estratégico para alinhar uma organização com as necessidades de seus clientes por meio das três capacitações fundamentais. E essas capacitações precisam ser vistas por seu valor estratégico potencial –afinal, o que é difícil de desenvolver também será difícil de copiar e, como tal, as capacitações podem ser uma fonte poderosa de vantagem competitiva sustentável.

* Esta reportagem foi publicada pela Revista HSM Management (Novembro/Dezembro de 2009) e agora no Mundo do Marketing.

Pós-venda como fator de fidelização

Serviço é usado como ferramenta de Marketing e de relacionamento por seguradoras

Por Thiago Terra, do Mundo do Marketing | 27/01/2010



As empresas de seguros detêm uma ferramenta que serve como termômetro e, às vezes, é o principal fator para a renovação do contrato com seus clientes. Neste segmento, o pós-venda é o principal serviço de fidelização que necessita de cuidados especiais já que, quando acionados, podem aproximar o cliente da empresa, mas também destruir a imagem corporativa e tornar um cliente em inimigo número um de seus serviços.

SulAmérica e MAPFRE sabem da importânciado pós-venda para o segurado. Mesmo que a contratação do serviço seja intermediado por corretores ou bancos, as companhias entendem que a necessidade destes clientes no momento do sinistro é de extrema importância para o relacionamento entre as partes no futuro.

Entregar o serviço contratado é o mote destas empresas quando o assunto é o pós-venda. Seja para seguros de automóveis, de vida, de empresas ou de saúde, o pós-venda se transforma no serviço prestado na hora que o cliente mais precisa. Experiência positivas nestas horas podem determinar a renovação de um contrato, a indicação para um amigo e a confiança do consumidor.

Ferramenta de confiança
O ramo de seguros chama a atenção por conta de ser um serviço feito para fatos que não aconteceram no dia a dia dos consumidores. Por isso, a importância do pós-venda para as seguradoras está incluída na estratégia de Marketing de serviços. “Seguro é uma aposta invertida porque o cliente contrata achando que será roubado ou que vai bater com o carro. Já que ele só vai usar se houver uma ocorrência, é preciso criar a maior quantidade possível de pontos de contatos positivos”, aponta Roberto Kanter, professor do MBA de Marketing da FGV, em entrevista ao Mundo do Marketing.

O pós-venda é uma dos compostos do Marketing capaz de gerar confiança ao cliente e, no caso das seguradoras, mais ainda. Principalmente levando em consideração a situação dele na hora em que o serviço é acionado. “Após um sinistro, a empresa pode ganhar a confiança deste cliente entendendo a situação e facilitando o processo de atendimento”, diz o professor Kanter.

Não são poucas as companhias que oferecem pós-venda. Neste caso, o serviço pode ser considerado commodity, o que requer boa dose de criatividade para torná-lo diferente. Um dos fatores que ajudam as empresas a ganharem notoriedade é o investimento em tecnologia. Além disso, a gestão do cliente também é vista por Kanter como um diferencial. “O ideal é ter categorias de clientes e, dentro delas, fazer a seleção dos melhores. Depois, criar um modelo de atendimento para estas categorias”, ensina.

Personalização e investimento
A realidade de um pós-venda personalizado pode ser diferente para empresas que possuem milhões de clientes em sua carteira. Neste caso, escolher os que precisam ter relação diferenciada é um caminho que pode trazer resultados satisfatórios no pós-venda e a tecnologia de ponta gera conforto para estes clientes.

Nos últimos dois anos, o setor de pós-venda e relacionamento da SulAmérica recebeu investimento para atender melhor os cerca de 300 mil clientes da seguradora. “Ano passado tivemos um aumento de 7% na adesão aos seguros oferecidos pela companhia a partir de investimentos basicamente em comunicação via e-mail, SMS e no site”, explica Simone Sartor (foto), Superintendente de Relacionamento e Desenvolvimento da SulAmérica.

Além destes resultados, o ano de 2009 estreitou o relacionamento da seguradora com sua base de clientes. Os seguros de saúde tiveram ações para fortalecer a imagem do produto por meio de mala direta com cardápio de experiências. “Chegamos a mais de 5% de adesão com relação ao serviço não estimulado”, lembra Simone em entrevista ao Mundo do Marketing.

Serviço X cliente
O que vai diferenciar o serviço de pós-venda de uma seguradora para outra é a atitude de lidar com o cliente. A afirmativa é de Inácio Araújo, Gerente de Marketing da MAPFRE. Segundo Araújo, no momento do sinistro, o primeiro cuidado do pós-venda é pensar no bem estar do cliente. “O ideal é se diferenciar pelo atendimento, entender a situação e direcionar para a solução mais rápida”, acredita.

O programa “De olho na Mapfre” possui mais de cinco mil prestadores de serviços simulando cliente oculto para entender como o consumidor é atendido e simular uma pane, um incêndio, um sinistro de chaveiro para casa ou um encanador. “Algumas pesquisas dizem que os clientes que mais utilizam o pós-venda são fidelizados. Quando ele solicita uma vez e é bem atendido, o cliente volta a usar o serviço e este se torna item relevante na hora de renovar o serviço”, avalia o Gerente de Marketing da MAPFRE em entrevista ao site.

A diferenciação do pós-venda também deve entender e respeitar o perfil do cliente. Além da entrega da promessa básica, se colocar no lugar dele e praticar empatia flexibilizando o atendimento é uma forma de se destacar no mercado. Na MAPFRE o serviço de pós-venda é treinado para que cada perfil de cliente tenha um atendimento especifico. “As companhias não podem esquecer o cliente final. É preciso ter conhecimento sobre ele e gerar uma relação a três porque a fragilidade delas está na dependência com bancos e corretores, que é excessiva”, conclui o professor da FGV, Roberto Kanter.

Petrobras, Nestlé e Natura são marcas universais

Elas são admiradas por todas as classes sociais e em todas as regiões do Brasil

Por Bruno Mello, do Mundo do Marketing | 12/01/2010



Petrobras, Nestlé e Natura estão entre as marcas de maior prestígio do Brasil. Elas são as primeiras do ranking Negócios 100 da revista Época Negócios, com mais de 200 marcas corporativas que se destacaram no ano passado. Mais do que isso, elas são marcas universais, de acordo com Jaime Troiano, sócio-diretor da Troiano, uma das empresas do Grupo Troiano de Branding, que conduziu o estudo para a revista a partir de uma pesquisa com mais de 15 mil pessoas do Brasil.

Ser uma marca universal significa estar presente em todas as regiões do Brasil e ter penetração em todas as classes sociais. Petrobras, Nestlé e Natura são as únicas empresas a figurarem numa listagem de 10 marcas segmentadas por faixa de renda, a qual o Mundo do Marketing obteve acesso em primeira mão. As marcas da petrolífera, da indústria de bens de consumo e da empresa de cosmético são as mais confiáveis e admiradas tanto para quem tem renda de até R$ 1.000,00, quanto por quem recebe até R$ 3.000,00, até R$ 5.000,00 e acima de R$ 8.000,00.

Elas também são unanimidade nas cinco regiões brasileiras. Norte, nordeste, sul, sudeste e centro oeste têm essas marcas como as mais admiradas e confiáveis. “ , democráticas e têm uma atuação nacional muito forte. Elas são capazes de criar identidade e empatia com todos os segmentos da população”, aponta Jaime Troiano, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Proximidade e segmentação fazem a diferença
O que as separa das demais marcas são dois fatores principais: proximidade com o consumidor e segmentação. As empresas tendem a ter mais sucesso de acordo com a proximidade que mantém com seus consumidores. O caso do segmento de companhias aéreas é um exemplo, com a Gol na frente da Tam. “Apesar de tudo de bom que a Tam tem feito, todo o trabalho de construção da marca Gol tem sido no sentido de quebrar a barreira da inacessibilidade, criando um sentimento de inclusão para as pessoas voarem”, explica Troiano.

No quesito segmentação, a diferença fica ainda mais acentuada. Para os consumidores que tem renda de até R$ 1.000,00, a Casas Bahia aparece em nono lugar no índice que mede a confiança e a admiração das marcas da Época Negócios. Já para quem recebe acima de R$ 8.000,00, a marca Casas Bahia cai para a posição de número 76. No outro extremo está a Mercedes, sétima no ranking entre os que recebem mais de R$ 8.000,00 e 47º para quem recebe até R$ 1.000.00. “Isso é a prova do que é segmentação”, afirma o especialista em branding.

É a prova também de que a mídia de massa vem perdendo espaço no Brasil e que a propaganda não é a única responsável pela construção de marcas admiradas e confiáveis. Fosse assim, Casas Bahia, a maior anunciante do país, seria a primeira do ranking. “Só pressão de mídia não cria marcas de prestígio absoluto. Ajuda, mas não é o suficiente”, diz Troiano. Este caso é ainda mais notório, uma vez que a líder do ranking é a Nestlé.

Marcas no divã
A marca suíça aparece em primeiro por uma série de ações tanto institucionais quanto de produto. “Ela faz um trabalho bastante inteligente no mercado. A Nestlé tem se comunicado usando a marca corporativa além de suas marcas de produto”, analisa Jaime Troiano. Ser a marca mais admirada e confiável significa ser escolhida pelo consumidor tanto pelo lado emocional quanto racional. “Admiração é uma avaliação genérica, com uma grande dose emocional. Tem a ver com as relações com as marcas. Já a confiança tem mais relação com a razão”, avalia Troiano.

O ranking Negócios 100 da revista Época Negócios mostrou ainda grandes variações de posições entre as marcas. Bombril subiu 14 posições, Ford caiu 25, Vivo subiu 20 posições, Santander subiu outras 26 posições e Visa, agora Cielo, caiu 33 posições. “Temos uma visão geral e fica difícil explicar as flutuações. Essa é uma iniciativa que deve ser tomada pelas empresas. Cabe a elas fazerem uma leitura criteriosa do que fizeram durante o último ano para poder explicar a sua posição”, recomenda o especialista.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Test-drive direciona as vendas em diferentes segmentos

Ação usada como estratégia de Marketing passa confiança ao consumidor

Por Thiago Terra, do Mundo do Marketing | 14/01/2010


Oferecer uma pequena prova de um produto no ponto-de-venda para o consumidor gera experimentação e pode terminar em venda. Esta prática é comum desde que o mundo é mundo nas feiras livres. O mercado se apropriou do termo test-drive e hoje ele não se aplica apenas a concessionárias de automóveis. A Audi utiliza esta ação para apresentar aos seus clientes preferenciais os seus novos modelos e, claro, ativar as vendas dando uma casquinha do que um proprietário de seus automóveis sente ao dirigir o veículo.

Oferecer o test-drive é sinônimo de confiança no produto ou serviço. Sabendo de seu potencial, a Seven, escola de idiomas, lançou em 2002 um projeto em que os futuros alunos podem fazer um test-drive antes de se matricularem. O projeto se transformou em ação institucional da Seven e desde sua primeira edição já foram mais de 12 mil alunos participando do test-drive.

Com ou sem carro, o test-drive é um conceito antigo e pode se encaixar na estratégia de diversos tipos de produtos ou serviços. Tanto que a Nike ofereceu aos consumidores que visitaram a Nike Store no Rio de Janeiro e em São Paulo um test-drive de 10 dias com um par de tênis, por meio da ação Running Service.

Degustação de novos modelos da Audi:
Para reforçar a marca e apresentar a tecnologia dos seus carros, a Audi desenvolve ações e eventos de relacionamento com futuros e atuais consumidores, em escala nacional, como forma de apoiar os concessionários da marca. As ações feitas pela Audi seguem a linha da marca de oferecer experiência aos consumidores que fazem parte do quadro de prospects ou VIPs da montadora.

Em julho de 2009, a Audi levou clientes VIPs para testarem o modelo recém lançado no Brasil, Audi A6. Além de um test-drive, os escolhidos receberam instruções sobre o carro e depois foram de helicóptero até o trecho sul da pista do Rodoanel (foto), em São Paulo, que ainda não havia sido inaugurada. A ação premiou a melhor pontuação entre os clientes participantes com um celular Sony Ericsson Xperia X1, que na época ainda não estava à venda no Brasil.

Além de ativar as vendas, a ação de test-drive da Audi faz parte da estratégia de comunicação da montadora. “Estas ações incrementam o volume de vendas e a imagem da marca, mas é preciso direcionar corretamente para que atinja um público seleto que se relaciona com a marca”, diz Leandro Radomile, Diretor de Marketing, vendas e pós-vendas da Audi Brasil, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Test-drive em inglês:
Apesar das ações de test-drive serem conhecidas, a Audi investiu em inovação. Para lançar o modelo A6, a montadora não só permitiu que o cliente dirigisse o veículo como também fizesse um trajeto em um circuito. O lançamento do Audi TTS aconteceu no sambódromo de São Paulo (foto) e lá os convidados tiveram a oportunidade de levar um veículo de zero a 100km/h em seis segundos.

Mas o test-drive não é só para quem quer comprar automóveis ou tênis, como no caso da Nike. A escola de idiomas Seven teve a ideia de oferecer uma degustação de seus cursos para futuros alunos. A ação foi desenvolvida com base no fato de que muitos estudantes não se adaptam à metodologia de alguns cursos e, por isso, era necessário experimentar antes. Porém, não foi fácil implementar o projeto por conta das dúvidas que surgiam. Será que em uma aula o aluno consegue se identificar com o curso?

Para evitar este problema, a Seven resolveu apostar em um ensino de qualidade para que o aluno vivencie as aulas durante até três semanas. “Tínhamos a impressão de que uma aula apenas não mostrava o que era realmente o curso. Por isso escolhemos vivenciar com métodos baseado em inteligências”, explica Priscila Nishiyama, Coordenadora de Marketing da Seven ao site.

Ação segmentada evita perda de foco:
A estratégia da Seven hoje é oferecer duas semanas, ou quatro aulas, para alunos adultos. O foco neste público se dá por conta de que quando o adulto matricula o filho em um curso de idiomas não é muito comum haver desistências. O pai fala para o filho que ele vai continuar no curso e pronto. “O adulto é mais difícil de fazer o curso e por isso oferecemos a ele as duas semanas grátis porque este perfil é mais difícil de convencer. Para o filho deste aluno, o test-drive é de uma semana, ou duas aulas, porque para o adolescente a decisão é mais ágil”, aponta Priscila.

A Seven tem ainda uma promoção onde o aluno que indicar amigos para o test-drive pode ampliar as semanas grátis de curso ou ganhar descontos. “A estratégia feita pela Seven só alcança o sucesso de acordo com a performance dos cursos naquele segmento. Executar bem uma ação de test-drive significa ter um produto que atenda a necessidade do consumidor e que se identifique com ele”, ensina Sergio Santos, Coordenador das disciplinas de Marketing da pós-graduação da ESPM SP.

A escola de idiomas sempre usou a mesma mecânica nesta ação de test-drive. A diferença encontrada hoje é com relação ao público, que busca cada vez mais experimentar o serviço. “Uma aula é pouco e ele se sente enganado. Outra questão que temos que ter cuidado é oferecer semanas grátis, porque o que é “grátis” pode ter uma conotação negativa e as pessoas não darem o devido valor”, avalia a Coordenadora de Marketing da Seven.

Test-drive X experiência:
Os planos da Audi para 2010 incluem dar continuidade a estas ações. De acordo com Radomile, o cliente tem que experimentar os veículos, mas é preciso fazer um test-drive de maneira inovadora e inusitada para que haja uma diferença entre os que são realizados nas concessionárias da empresa alemã.

O relacionamento existente entre o cliente e a concessionária Audi é o que determinará quem participa das ações de test-drive diferenciadas da Audi. “Vivenciar uma experiência é diferente de conhecer a tecnologia presente em um carro. O cliente vê como funciona, por exemplo, um modelo esportivo com tração nas 4 rodas. Isto constroi a imagem da marca na cabeça do cliente. Nem sempre se realiza uma venda, mas fortifica a marca”, afirma o Diretor de Marketing, vendas e pós-vendas da Audi Brasil (foto).

A efetividade destas ações de test-drive depende da experiência que se cria. “Os futuros alunos da Seven precisam ter uma experiência positiva assim como a Audi tem que montar um esquema que atraia o consumidor potencial. Se não tiver esse cuidado ao atrair, seja qual for o segmento da empresa, não haverá efetivação das vendas. Por isso é importante ter um filtro de participação para segmentar a ação de forma correta”, completa o coordenador das disciplinas de Marketing da pós-graduação da ESPM SP, Sergio Santos.